FLAGvox | A tua carreira aguenta uma mudança brusca?

Imaginemos que amanhã metade do nosso trabalho desaparece, porque aquilo que fazíamos em duas horas passa a fazer-se em dez minutos. O que sobra pode ser libertador ou assustador, e depende de uma coisa: temos competências para ocupar esse espaço com valor ou apenas sabemos preencher tempo com tarefas?

A transformação acelerada do mercado não nos está a pedir que adivinhemos a próxima profissão da moda. Está a exigir uma mudança mais incómoda: deixar de pensar em carreira como cargo, mas como capacidade. O título que temos hoje interessa menos do que o tipo de problemas que conseguimos resolver quando o contexto muda, quando a equipa muda, quando as ferramentas e a tecnologia mudam.

A IA é o teste mais óbvio a esta nova realidade. O risco não é a tecnologia existir, mas a atitude com que nos aproximamos dela. Se a tratamos como magia, ficamos dependentes; se a virmos como ameaça, ficamos parados. A solução é a literacia prática: saber pedir bem, verificar o que recebemos, detetar erros plausíveis, proteger dados, perceber limites e decidir quando não usar IA. Quando usamos IA para acelerar o mecânico, ganhamos tempo. Em contrapartida, quando a utilizamos para pensar por nós, perdemos músculo e, com o tempo, perdemos relevância.

Note-se que a verdadeira blindagem não é tecnológica, mas feita de meta-competências. A capacidade de aprender depressa, desaprender sem ego e reaprender sem vergonha. Pensamento crítico para não aceitarmos respostas bonitas só porque vêm com confiança. Resolução de problemas para sairmos do modo “execução” e entrarmos no modo “solução”. Comunicação para alinharmos expectativas, explicarmos decisões e influenciarmos, mesmo sem um cargo pomposo. Num mercado instável, aprender vale mais do que saber, porque o saber caduca.

Depois entram as competências comportamentais, muitas vezes tratadas como conversa leve de recursos humanos. São a parte do trabalho que cresce quando tudo o resto se automatiza: colaboração real, gestão de conflito, adaptabilidade, ética, responsabilidade. Uma máquina pode produzir conteúdo, mas não assume consequências. Consequentemente, quanto mais as ferramentas fazem, mais pesa a confiança com que criamos, a clareza com que decidimos e a forma como trabalhamos com pessoas em ambientes tensos e ambíguos.

Na prática, preparar-nos para profissões que ainda não existem começa com uma auditoria simples ao nosso dia: o que fazemos é repetitivo ou exige julgamento?

O que é repetitivo pede automação. O que exige julgamento pede treino. Pegamos numa tarefa real e usamos IA para acelerar o mecânico: rascunhos, sínteses, listas, organização, primeiras versões. Depois investimos o tempo poupado no que realmente conta: definir critérios, escolher entre opções, validar com dados e com pessoas, construir narrativa, antecipar riscos, tomar decisões. Isto muda o nosso perfil de “executores de tarefas” para “criadores de resultados”.

E sim, a formação entra nesta história, mas não como momento heróico de “voltar a estudar” uma vez por ano. Entra como rotina: ciclos curtos, prática aplicada, feedback exigente, aprendizagem com contexto. Um bom programa não nos enche a cabeça, mas ajuda-nos a testar ferramentas sem ingenuidade, a ganhar linguagem para pensarmos melhor e a voltar ao trabalho com mais precisão.

A mudança brusca não pede calma, pede estrutura. Não pede certezas, pede adaptabilidade. A questão, no fim, é mesmo esta: quando o mercado puxar o tapete, temos chão próprio ou caímos com ele?

Artigo de Opinião em: SAPO | Texto de: Gabriel Augusto

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