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#FLAGvox | “Liga da Burocracia – como a Criatividade pode(rá) mudar o jogo!”

No último século e meio, a burocracia fez do trabalho em equipa um jogo em que funcionários (jogadores) concorrem entre si pelo prémio do derradeiro reconhecimento: a promoção! E à imagem da maioria dos jogos, neste também só pode existir um vencedor…

Em teoria, uma promoção deveria ser (apenas e só) a merecida recompensa pela competência técnica ou capacidade de liderança demonstradas por um determinado jogador. Mas na prática, são os que nunca se comprometem com difíceis decisões, os bajuladores, os políticos e os mais competentes a desviar responsabilidades e culpas que acabam por vencer.

Que não restem dúvidas: numa burocracia, os interesses individuais irão sempre sobrepor-se aos interesses da equipa e da organização. E a principal preocupação de quem trabalha, não é a de garantir o melhor desempenho possível em prol dos interesses da organização, mas sim a de assegurar a manutenção do seu posto de trabalho.

Hoje em dia, a burocracia não só revela o pior das pessoas (jogadores) como, salvo honrosas excepções, está longe de ser um sistema fiável na hora de organizar hierarquicamente uma empresa. E o pior é que estamos completamente conformados com a ideia de que a lentidão dos processos, a complexidade dos sistemas e a inércia de estruturas pesadas fazem parte das leis do jogo… e insistimos em esquecer que as únicas leis que nunca conseguiremos mudar são as da Física.

Repensar a forma burocrática como trabalhamos é urgente. Mas para que tal aconteça é imperativo adoptarmos a necessária predisposição que conduz à inovação. A tal inovação geradora de disrupção, que tem na criatividade o único recurso necessário.

A minha crença na criatividade para nos libertar deste colete de forças, reside no facto de ter sido ela própria a colocar-nos nesta situação, quando no início da Era Industrial encontrou na burocracia a resposta para fazer face à súbita necessidade de reorganizarmos o Trabalho e suprimirmos a aptidão que mais escasseava na altura: a competência administrativa.

A Wharton School, fundada em 1881, foi primeira escola de negócios a ser criada (mais uma vez, a criatividade humana a resolver um problema e a capitalizar uma oportunidade), à qual se seguiram (as não menos prestigiadas e elitistas) as academias de Harvard e Stanford. Em comum, tinham o facto de ministrarem cursos de gestão, uma disciplina por essa altura tão complexa, quanto exigente e desconhecida.

E foi, precisamente, a partir de então que se começou a doutrinar o Mundo moderno a valorizar o trabalho administrativo e, por consequência, a desvalorizar a importância do trabalho criativo.

Estavam lançadas as bases para os modelos de gestão e liderança, que têm passado como um legado de geração em geração e subsistido até aos dias de hoje. Os seus princípios burocráticos não só ainda defendem os interesses de um status quo elitista, como impedem até hoje, que funcionários da base hierárquica possam pensar e agir para além da função que desempenham.

Apesar de “desumana”, a verdade é que a burocracia era, segundo Max Webber, “superior a qualquer forma organizacional em termos de precisão, estabilidade, rigor disciplinar”, “mais credível” e foi graças a ela que se atingiram níveis de eficiência inimagináveis até então…

Importa reconhecer que até então, as organizações (pré-burocráticas) eram geridas sem critério e regras, não existia o conceito de planeamento, as práticas de trabalho eram definidas pelos “caprichos” de cada patrão, a supervisão era deficitária e as contrapartidas não estavam alinhadas com esforço ou competência. O resultado? Níveis de rotatividade absurdos, que até então eram considerados normais.

Independentemente das suas lacunas (e são várias), a verdade é que temos que agradecer à burocracia a estabilidade laboral que ela conseguiu garantir (pelo menos para muitos), que teve como consequências diretas o exponencial aumento do poder de compra registado no último século e o aumento da nossa qualidade de vida – pelo menos em termos genéricos.
Como todas as grandes invenções que marcaram a história da Humanidade, merece ser devidamente enaltecida… e recordada, quando for finalmente “exonerada”.

Não podemos continuar a ser complacentes e conformistas. É hora de canalizarmos todos os esforços possíveis para redefinirmos o paradigma laboral, de forma que seja possível tirarmos partido das qualificações, competências e idiossincrasias de quem trabalha.

Há quem defenda que a solução passará por hierarquias mais naturais e dinâmicas, capazes de dar voz e poder de escolha aos subordinados. Outros, que as compensações deverão ser proporcionais aos contributos e não serem definidas (limitadas) pela posição hierárquica.

Pessoalmente, nunca fui grande apologista das soluções “one-size-fits-all”, pelo que do alto da minha ingenuidade acredito que a solução poderá passar por um modelo de organização tão flexível e versátil que, no limite, possa ter uma declinação própria por empresa.

Confesso que não sei como é que isso se fará.

Mas se estivesse no topo de uma hierarquia formal e fosse “obrigado” a tomar uma primeira resolução nesse sentido, não tenho dúvidas de qual seria: contrataria um Chief Creative Officer, que teria como primeira função na sua job description o desafio de (re)pensar todas as dinâmicas (internas e externas) da organização e cujo papel, na prática, poderia ser comparado aqueles “médios volantes” do futebol de outros tempos, que não tinham uma posição definida no campo.
Considerados como “maestros”, eram os elementos com maior influência dentro das suas equipas e todos eles tinham um traço em comum: eram todos génios criativos, capacitados a tomar decisões críticas em prol dos interesses de toda a equipa – e em função do que o jogo ditava a cada momento…

P.S.: Artigo dedicado a todos os criativos que já sentiram o seu trabalho desvalorizado (por uma vez que fosse) e que continuam a trabalhar num contexto incerto – para não dizer “precário”…

Artigo de Opinião em: Human Resources. | Texto de: Luís Soares.