#FLAGvox | Made by Humans

Em Pluribus, série de ficção científica criada por Vince Gilligan, um sinal vindo do espaço desencadeia um “vírus da felicidade” que liga quase toda a humanidade numa mente coletiva. À superfície, tudo parece igual, mas por trás de cada gesto há uma única consciência, sempre calma e otimista. A protagonista, uma escritora imune ao fenómeno, percebe que há algo errado naquela alegria em série, como se o mundo inteiro passasse a seguir o mesmo script. E, no fim de cada episódio, surge um aviso insistente: “This show was made by humans”.
Não chega contar uma boa história. É preciso sentir que houve alguém a escolher cada palavra. No marketing é igual. Usar IA não é o problema, o problema começa quando o resultado soa a piloto automático, um coro que fala de tudo e, no fim, não diz nada.
As equipas de marketing e de conteúdo passaram do “não temos tempo para produzir” para a abundância de textos em minutos. Quando usamos a Inteligência Artificial apenas para preencher o calendário editorial, entramos em modo Pluribus: muito output e pouco contraste.
Quando quase toda a gente trabalha com as mesmas ferramentas, a IA deixa de ser vantagem e passa a ser infraestrutura, como ter CRM ou analytics. A pergunta já não é “usamos IA?”, é “Há aqui algo que só nós poderíamos publicar?”. Se a resposta for “não”, o problema não está na tecnologia, está na ausência de ponto de vista.
É aqui que o “made by humans” pesa. Começa nos dados e contextos que não estão em mais lado nenhum: padrões de compra que só nós vemos, dúvidas apanhadas em calls de vendas, frustrações que transbordam nos tickets de suporte. Um modelo aberto escreve um e-book aceitável sobre tendências do setor; mas só nós conseguimos dizer o que passa pela cabeça dos melhores clientes antes de comprar, renovar ou cancelar.
Depois, nas ideias que arriscam. Pluribus não é apenas mais uma história sobre tecnologia que corre mal; é sobre felicidade, consentimento e escolha. Também no conteúdo de marca se nota quem tem tese própria e quem se limita a repetir o consenso em frases polidas. Falta mais vezes a frase que assume: “nisto discordamos do mercado”.
Por fim, na coragem criativa. O aviso “made by humans” no fim de cada episódio não é enfeite, é assinatura e responsabilidade. No marketing, o equivalente não é pendurar um selo “feito com IA”. É publicar peças que alguém dentro da empresa defende com nome e apelido, sabendo que vão irritar alguns e entusiasmar poucos, mas os certos.
IA não é o vilão. E o risco está no conforto de produzir em série e confundir quantidade com relevância. “Made by humans” não significa voltar ao papel e à máquina de escrever. Significa usar a tecnologia para acelerar o mecânico e guardar o melhor tempo da equipa para o que continua impossível de automatizar: ler bem os dados, formular teses fortes e falar com uma voz que aceita o risco de estar errada em público. Se tratarmos a IA apenas como atalho para volume, acabamos por descobrir que o que está em causa não é o futuro das ferramentas, mas o futuro da marca.
Artigo de Opinião em: +M | Texto de: Gabriel Augusto










