“Portugal forma, mas não transforma. O desalinhamento entre formação e mercado.”

Portugal é, hoje, um país mais qualificado do que em qualquer outro momento da sua história. Nas últimas décadas, assistimos a um crescimento assinalável da escolaridade média, ao aumento do número de diplomados do ensino superior e a uma expansão significativa da oferta formativa, tanto académica como profissional.
Ainda assim, persiste um paradoxo difícil de ignorar, continuamos a ter empresas que não conseguem contratar os perfis de que precisam e profissionais que não encontram oportunidades alinhadas com as suas qualificações.
Segundo dados da Eurostat, Portugal tem vindo a convergir com a média europeia no que respeita à qualificação da população ativa. Contudo, essa convergência estatística não se traduz automaticamente em competitividade económica, inovação estrutural ou maior produtividade. O problema não está apenas na quantidade de formação, mas na sua relevância e capacidade de adaptação.
O modelo educativo português, à semelhança de muitos outros na Europa, continua fortemente estruturado em ciclos longos, currículos rígidos e processos de atualização lentos. O mundo do trabalho, pelo contrário, tornou-se dinâmico, tecnológico e imprevisível. Áreas como tecnologia, data, inteligência artificial, sustentabilidade ou cibersegurança evoluem a um ritmo que desafia qualquer plano curricular definido a quatro ou cinco anos.
Quando uma formação é desenhada, acreditada e implementada, muitas das competências nucleares já sofreram alterações. O resultado é um desfasamento estrutural entre o que é ensinado e o que é efetivamente necessário nas organizações.
Ao mesmo tempo, continuamos a valorizar excessivamente o diploma como fim em si mesmo, em detrimento das competências concretas. O mercado já não procura apenas qualificações formais; procura capacidade de resolução de problemas, adaptabilidade, pensamento crítico e competências técnicas atualizadas.
O discurso recorrente de que “não há talento em Portugal” merece ser questionado. Talento existe. O que muitas vezes não existe é alinhamento. As empresas procuram competências específicas que o sistema educativo não produz com a rapidez necessária. Por outro lado, muitos jovens escolhem percursos formativos com baixa empregabilidade ou com fraca ligação à realidade económica do país.
Esta desconexão gera três consequências preocupantes. Por um lado, escassez em áreas críticas, especialmente tecnológicas e técnicas; depois, subemprego e frustração profissional em áreas saturadas; por fim, a já conhecida emigração qualificada, onde profissionais encontram lá fora o reconhecimento e as oportunidades que não encontram entre nós.
A responsabilidade não é exclusiva das instituições de ensino ou formação. As empresas, durante demasiado tempo, assumiram uma posição passiva, esperando que o sistema lhes entregasse profissionais “prontos a usar”, sem um envolvimento estruturado na definição de currículos, estágios ou programas de requalificação.
O conceito de aprendizagem ao longo da vida deixou de ser um slogan europeu para se tornar uma necessidade económica. A transição digital e energética, impulsionada também por instrumentos como o Plano de Recuperação e Resiliência, exige uma requalificação massiva da população ativa.
Países que conseguiram acelerar a sua transformação económica, como a Estónia ou a Irlanda, fizeram-no não apenas investindo em educação, mas alinhando estrategicamente formação, política pública e visão económica. Identificaram setores prioritários, ajustaram currículos, incentivaram parcerias entre empresas e instituições de ensino e criaram mecanismos ágeis de reconversão profissional.
Portugal precisa de dar esse salto qualitativo. Não basta medir o sucesso do sistema educativo pelo número de diplomados. É fundamental introduzir métricas de empregabilidade real e adequação de competências, bem como de impacto económico. Que percentagem dos formados trabalha na sua área? Quanto tempo demora a integração no mercado? Que competências estão efetivamente a ser utilizadas?
Mais do que discutir a dicotomia entre ensino universitário e a formação profissional, importa reconhecer que o mercado precisa de ambos, os quais necessitam de maior flexibilidade. Microcredenciais, cursos intensivos, modelos híbridos entre academia e indústria e certificações técnicas podem ser parte da solução.
O desalinhamento entre educação e mercado não é apenas um problema do sistema educativo, é um problema estrutural do país. Envolve decisores políticos, empresas, instituições de ensino e os próprios estudantes. Perante isso, precisamos de uma maior previsibilidade estratégica sobre os setores prioritários da economia, com incentivos claros à formação em áreas de elevada procura, uma participação ativa das empresas na definição de conteúdos e competências, bem como uma cultura de atualização contínua por parte dos profissionais.
Para aumentar a produtividade, reter talento e atrair investimento, há que garantir que a formação é um motor de transformação económica, não apenas um indicador estatístico de progresso social.
Portugal já provou que consegue formar. O desafio da próxima década é provar que consegue transformar.
Artigo de Opinião em: Link to Leaders | Texto de: Gabriel Augusto










