#FLAGvox | O futuro das PME começa nas pessoas

No Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, a FLAG reforça que a formação contínua e a inteligência artificial são hoje elementos essenciais para aumentar a competitividade e preparar os negócios para a mudança.
Assinalou-se a 27 de junho, o Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, criado pela ONU em 2017 para reconhecer o papel destas organizações no crescimento económico, na criação de emprego e na inovação. Em Portugal, as PME representam cerca de 99% do tecido empresarial, empregam quase três quartos dos trabalhadores do setor privado e geram perto de dois terços do valor acrescentado bruto da economia. Por isso, esta data assume um significado especial e reforça a importância destas empresas para a competitividade e o desenvolvimento do país.
Hoje, as PME enfrentam desafios que vão muito além da simples gestão diária. Inovar, apostar em tecnologia e, fundamentalmente, desenvolver as competências das equipas tornou-se essencial para garantir resiliência e crescimento sustentável.
Com o objetivo de perceber o presente e o futuro das PME portuguesas, a Executive Digest falou com Olga Moreira, Head of Business Unit da FLAG, onde discutimos o papel da formação contínua, o impacto da Inteligência Artificial (IA) no mundo empresarial e o que distingue as empresas que conseguem transformar a mudança numa verdadeira vantagem competitiva.
Neste momento, como definiria a realidade das PME portuguesas?
Continuam a ser o verdadeiro motor da economia portuguesa. Representam cerca de 99% do tecido empresarial nacional, empregam aproximadamente três em cada quatro trabalhadores do setor empresarial e geram perto de dois terços do valor acrescentado bruto da economia. Por isso, quando falamos de PME, estamos a falar da capacidade de crescimento e da competitividade do próprio país.
Ao mesmo tempo, importa recordar que a grande maioria destas empresas são microempresas, com menos de 10 trabalhadores. Isso traz desafios muito próprios. A dimensão condiciona a capacidade de investimento, a atração e retenção de talento, a adoção de novas tecnologias e até a margem para responder a um contexto económico cada vez mais exigente e imprevisível.
Ainda assim, aquilo que mais tenho observado é uma enorme vontade de evoluir. Nos contactos que mantenho diariamente com empresas, sinto que existe uma consciência clara de que inovar, investir em tecnologia e desenvolver competências deixou de ser uma opção para passar a ser uma condição para crescer.
Há, aliás, uma característica das PME que considero uma enorme vantagem, a agilidade. Por terem estruturas mais próximas e processos de decisão menos burocráticos, conseguem muitas vezes adaptar-se mais rapidamente à mudança do que organizações de maior dimensão. Quando essa agilidade é acompanhada por uma aposta consistente na qualificação das pessoas e na adoção da tecnologia, traduz-se em ganhos reais de produtividade, eficiência e competitividade.
As PME estão a investir o suficiente na formação dos seus colaboradores, ou este continua a ser um dos grandes desafios do tecido empresarial?
Temos notado uma mudança de mentalidade muito interessante nos últimos anos. A formação deixou de ser vista como um custo ou uma “interrupção” no trabalho para passar a ser encarada como um investimento estratégico na produtividade. Na FLAG, por estarmos tão próximos das áreas de tecnologia e inovação, sentimos isto de forma muito clara. As empresas já não discutem se devem dar formação, mas sim como podem capacitar as suas equipas para acompanhar a velocidade do mercado.
Um exemplo evidente é a Inteligência Artificial. A maioria das PME com que falo já percebeu que a IA não é um adversário, mas um complemento que pode libertar as pessoas de tarefas repetitivas e aumentar o valor do que entregam. Quando as empresas investem nesta capacitação, a organização torna-se muito mais resiliente, porque a inovação deixa de estar concentrada em dois ou três elementos e passa a ser algo partilhado por toda a estrutura.
É claro que, numa PME, cada investimento é pesado ao detalhe. Sabemos que, num cenário de cortes orçamentais, a formação é muitas vezes das primeiras áreas a ser sacrificada porque o retorno nem sempre é visto como imediato. Por isso mesmo, o nosso papel tem sido o de demonstrar o impacto prático deste investimento no negócio. É este reconhecimento que tem levado as empresas a procurar programas cada vez mais personalizados, desenhados à medida das suas necessidades específicas e da sua disponibilidade financeira
Quais são as competências mais procuradas pelas empresas e de que forma essa procura mudou nos últimos anos?
Hoje, a procura está quase totalmente centrada na dimensão digital, e de uma forma transversal a todos os departamentos da empresa. Se já sabíamos que a IA seria uma revolução, a velocidade com que se instalou no dia a dia das PME ultrapassou até os cenários mais otimistas. Estão a ser repensados modelos de negócio e formas de trabalhar que pareciam imutáveis.
Nesse sentido, o que verificamos é uma crescente atenção para o reforço das competências em áreas que vão do Marketing Digital & E-Commerce ao Design Gráfico, do Vídeo & Motion Design ao UX/UI, todas elas ampliadas com a IA. Já não se trata apenas de dominar uma ferramenta, mas de perceber como a Inteligência Artificial pode potenciar a criatividade e a execução em cada uma destas disciplinas para ganhar competitividade.
Sinto também que o conceito de lifelong learning deixou de ser uma expressão teórica para as PME portuguesas. As empresas estão a investir em formatos mais flexíveis, que permitem às equipas manterem-se atualizadas sem comprometer a operação diária. No fundo, as lideranças perceberam que, para comunicarem de forma inspiradora para fora e alcançarem os seus objetivos, precisam primeiro de equipas capacitadas e motivadas. É este equilíbrio entre o talento humano e a tecnologia que dita o sucesso atualmente.
A IA está a transformar processos e modelos de trabalho. As PME portuguesas estão a conseguir acompanhar esta mudança?
Vivemos tempos de uma aceleração sem precedentes. Como costumo dizer, os paradigmas de hoje correm o risco de se tornarem obsoletos muito rapidamente se não houver uma cultura de atualização constante. Este conceito de Formação 4.0, que se traduz na adaptação contínua das pessoas aos novos processos digitais, deixou de ser um horizonte distante para ser a realidade imediata das nossas TI e de todas as áreas de negócio.
Na FLAG, sentimos isto diariamente, até porque também somos uma PME. Partilhamos os mesmos desafios que tantas outras empresas, a necessidade de sermos criativos, de dominarmos as ferramentas digitais e de nos posicionarmos na vanguarda. O que noto nos meus contactos com outras lideranças é uma consciência crescente de que a formação interna não é apenas uma visão estratégica, mas sim uma inevitabilidade para a sobrevivência e sustentabilidade de qualquer negócio.
A IA é o exemplo máximo desta revolução. Ela está a moldar a forma como gerimos projetos, como executamos funções e até como nos comportamos no ambiente de trabalho. Isto exige dos profissionais, independentemente do setor ou da senioridade, uma capacidade de ajuste permanente. As PME que estão a conseguir acompanhar esta mudança são aquelas que perceberam que o ativo mais importante para lidar com a tecnologia continua a ser a capacidade de aprendizagem das suas pessoas.
O que diferencia as PME que conseguem crescer e adaptar-se das que acabam por ficar para trás?
O que diferencia as PME que crescem é, acima de tudo, a forma como olham para as suas pessoas. As empresas que melhor navegam nestes períodos de disrupção são aquelas que não descuram o talento interno e que, ao desafiarem os seus profissionais, o fazem com um plano de desenvolvimento claro, alinhado com as motivações de cada um. Quando a formação traz resultados concretos, tanto para o colaborador, como para o negócio, cria-se um círculo virtuoso de motivação e eficácia.
Além disso, é fundamental que as organizações tenham uma leitura muito atenta do ecossistema onde gravitam. Isso exige saber antecipar riscos e oportunidades, corrigindo lacunas sem perder o foco na execução da estratégia. Há que olhar também para o que de melhor se faz globalmente, não para copiar fórmulas prontas, mas para adaptar as melhores práticas à nossa própria realidade. Muitas vezes, perdemos perspetivas inovadoras e olhares “fora da caixa” por ignorarmos o que está a acontecer em torno de nós.
A diferença entre uma PME que cresce e uma que estagna reside na capacidade de conjugar o valor humano, o conhecimento profundo do mercado e a tecnologia. Mas a tecnologia sozinha não é uma solução mágica; é, sim, um facilitador estratégico que deve estar ao serviço das equipas. As empresas que percebem isto, e que investem seriamente na capacitação das suas pessoas, são as que conseguem transformar a mudança numa vantagem competitiva real.
Como referiu, a FLAG é também uma PME. Que fatores têm sido decisivos para o crescimento e afirmação da empresa num sector tão competitivo?
Acredito que um dos fatores mais importantes foi a capacidade de antecipar as necessidades do mercado. Ao longo dos seus 34 anos, a FLAG soube evoluir de forma consistente, acompanhando a transformação tecnológica e ajustando a sua oferta formativa às competências que as empresas realmente procuram. Foi assim quando apostou nas áreas do Design, do Marketing Digital, UX/UI ou, mais recentemente, com a integração das ferramentas de Inteligência Artificial nestas áreas.
Outro fator decisivo tem sido a forte ligação ao mercado. Procuramos que os nossos programas sejam desenvolvidos com uma componente muito prática e alinhados com os desafios reais das organizações. Trabalhamos com formadores que estão no terreno, conhecem a realidade das empresas e conseguem trazer essa experiência para a sala de formação. Isso faz toda a diferença na qualidade da aprendizagem e na sua aplicação imediata.
Diria também que a capacidade de adaptação tem sido determinante. O mercado muda rapidamente e isso obriga-nos a rever conteúdos, lançar novas formações e responder a necessidades que, muitas vezes, nem existiam há pouco tempo. Essa agilidade permite-nos manter uma oferta atual e relevante.
No fundo, aquilo que nos tem permitido crescer é mantermos o foco na nossa missão, ajudar pessoas e organizações a desenvolver competências que tenham impacto real na sua evolução profissional e na competitividade dos seus negócios. É essa proximidade ao mercado e essa capacidade de antecipação que continuam a fazer a diferença.
Entrevista publicada na Executive Digest.











