#FLAGvox | O social das redes ficou pelo caminho?

As redes sociais continuam a aproximar pessoas, dar visibilidade a causas, abrir oportunidades, ajudar a aprender e criar comunidades. Porém, estão menos sociais do que prometiam ser.
As redes sociais nasceram com a promessa de ligar pessoas. Entrávamos para ver o que amigos, colegas, familiares e comunidades partilhavam e também para partilhar um pouco da nossa vida com eles.
Hoje, abrimos uma aplicação e vemos menos conteúdos de amigos. Em vez disso, recebemos vídeos de desconhecidos, opiniões de pessoas que nunca escolhemos seguir e recomendações de criadores que surgem porque o sistema acredita que nos vão interessar. Muitas vezes, nem entramos para falar com alguém, mas para sermos entretidos.
Antes, o feed era construído em torno das nossas ligações e víamos publicações de pessoas, páginas e marcas que tínhamos escolhido acompanhar. Havia também algoritmo, mas a base era sobretudo social.
Agora, as plataformas analisam os nossos comportamentos e usam esses sinais para recomendar conteúdos cada vez mais alinhados com os nossos interesses, independentemente da sua origem.
O TikTok tornou este modelo evidente. O seu sucesso não nasceu da lista de amigos, mas da página “Para Ti”. A partir daí, o Instagram, o YouTube, o Facebook e até o LinkedIn seguiram o mesmo caminho e o nosso feed deixou de refletir a nossa rede para passar a antecipar aquilo que provavelmente vamos querer ver.
Para além disso, começa a surgir uma nova camada: conteúdos gerados por inteligência artificial. Se antes as redes sociais nos ligavam a amigos e, mais tarde, a desconhecidos recomendados pelo algoritmo, agora parte do que consumimos pode nem sequer ter sido criada por uma pessoa. Primeiro, a rede deixou de depender apenas de quem conhecíamos. Depois, deixou de depender apenas de quem escolhíamos seguir. Agora, começa também a deixar de depender de autoria humana claramente reconhecível.
A verdade é que nunca foi tão fácil descobrir ideias, tendências, especialistas, movimentos culturais, oportunidades profissionais ou comunidades de nicho. Um criador sem grande audiência pode chegar a milhares de pessoas. Uma marca pequena pode ganhar visibilidade. Uma boa ideia pode passar para lá do círculo imediato.
No entanto, quanto mais espaço é ocupado por conteúdos recomendados, menos sobra para a parte relacional. Seguidores não são comunidade e visualizações não são vínculo. Podemos consumir muito conteúdo sem criar qualquer ligação significativa.
Também por isso sentimos a estranha contradição de estarmos mais expostos a pessoas do que nunca, mas nem sempre mais ligados a elas. Sabemos o que pensa um criador do outro lado do mundo, mas perdemos atualizações de amigos próximos. Acompanhamos debates virais, mas deixamos passar momentos importantes de quem conhecemos.
Para os profissionais de marketing, esta mudança obriga-nos a perguntar se estamos a construir relação ou apenas a otimizar presença. Durante anos, falámos de comunidades, engagement e conversas. Hoje, muitas marcas estão sobretudo a alimentar sistemas de recomendação com conteúdos desenhados para reter atenção.
Seria ingénuo ignorar que há aqui uma responsabilidade que também é nossa, enquanto utilizadores. O que vemos resulta, em grande parte, da atenção que damos. Quando consumimos sem critério, ajudamos a reforçar os padrões que as plataformas acabam por nos devolver.
Por isso, no Dia Internacional das Redes Sociais, sugiro refletirmos sobre o que ainda há de social e que relação estamos a construir.
Não há dúvidas que as redes sociais continuam a aproximar pessoas, dar visibilidade a causas, abrir oportunidades, ajudar a aprender e criar comunidades impossíveis noutros contextos. Porém, estão menos sociais do que prometiam ser.
Ou então, claro, tudo isto pode ser apenas o desafio existencial de um GenX que viu as primeiras redes sociais nascerem e agora tenta aceitar que o conceito de “rede social” mudou mais depressa do que ele.
Parece-me justo que uma rede social só devia merecer esse nome se o propósito de ligar pessoas se mantiver.
Artigo de Opinião em: +M | Texto de: Gabriel Augusto











