Obtenha as últimas notícias sobre a nossa resposta ao Covid-19 e as nossa políticas de cancelamento. Saiba mais

#FLAGvox | “Dia do Professor”

O que é ser formador?
Foi, ou tem sido sempre nestes moldes que me é colocada a questão, mas por estes dias o registo mudou. Na realidade a inquirição é a mesma, mas a tónica, o foco são outros. Reside na enumeração de fatores qualitativos e que me foram diretamente colocados com o propósito de dar a minha resposta ou visão opinativa – Vantagens e desvantagens de ser formador e qual a influência a nível profissional no aluno/formando?

Sendo esta questão, uma vez mais, um exercício de opinião e de experiência pessoal, a minha resposta, inevitavelmente, irá ser o reflexo de dois momentos marcantes e determinantes na forma com as dinâmicas educativas se alteraram. Sim, é uma vez mais a já habitual Antes da Pandemia/Durante a Pandemia/Após a Pandemia.

Enquanto formador, até Março de 2020, desvantagens a apontar seriam com toda a certeza zero. Ser formador só se traduzia em vantagens. Não! Não se trata de uma afirmação romantizada do que é ser formador nem de um discurso condescendente. É para mim ponto assente que o retorno sempre foi positivo, quer profissional, quer pessoal. Sim, pode-se falar das situações mais chatas e complicadas em sala, desde os comportamentos inadequados de alguns formandos, aos problemas técnicos, dos dias em que o próprio formador está mais cansado e de todo um conjunto de situações, acontecimentos, sucedidos que, na realidade, não fazem mais do que parte desta área profissional e como tal não devem ser encarados como desvantagens mais sim como primordialidades. Umas mais desafiantes que outras, é certo, e para quais temos que criar formas de contorno e adaptação. Ou seja, nada de desvantajoso aqui.

Este é o retrato que faço antes do evento pandêmico e ao qual junto mais alguns pontos positivos, como a presença em sala, que para além do contexto formativo, se traduzia igualmente num convívio bastante dinâmico com espaço para uma grande amplitude de temas sempre focados nos módulos e os seus paralelos. Tudo isto com a vantagem de observar in loco rostos, comportamentos e os olhares cheios de vontade de participar ou de satisfação por validação e claro também, o olhar vazio e perdido a pedir ajudar sem verbalizar.

Entre lockdowns e realidades mistas, todos os modelos profissionais e educativos foram-se adaptando. No caso das formações apenas se acelerou um processo que há anos vinha a ser implementado e que era a formação à distância. Designada por “Live Training”, “Formação Remota”, a formação não presencial ficou e será para muitos a norma e o principal modelo pós pandemia.

Vantagens quanto formador neste panorama? Para além das que já tinha enquanto profissional no modelo presencial há que acrescentar a possibilidade de chegar a mais formandos, qua na impossibilidade de se deslocarem aos grandes centros urbanos podem assim usufruir das formações. Descentraliza-se os serviços, o conhecimento e a qualificação das pessoas. Desvantagens? Para mim a perda da dinâmica social que só se consegue com a presença de diferentes personalidades dentro do mesmo espaço. Sim, pode-se afirmar que no modelo online o mesmo é possível de recriar, mas a clareza da mensagem entre interlocutores estará sempre comprometida, seja por questões técnicas ou porque em alguns casos a introversão acentua-se porque não há forma de a detetar numa primeira instância e revertê-la.

Ainda assim, apesar do distanciamento, não se perde a aprendizagem mútua, que pode ir desde questões técnicas a trivialidades, mas que não deixam de ser conhecimento e possíveis ferramentas, técnicas, teóricas, práticas… Em qualquer um dos contextos, e neste caso falando da minha experiência, o percurso como formador é sempre um complemento ao meu percurso enquanto designer. Não só porque há questões técnicas colocadas pelos formandos, que são tão específicas e personalizadas e que me obriga a explorar diferentes caminhos, acabando por os trazer inevitavelmente para a área do design, como também a visão de cada elemento de uma turma é por si só uma aprendizagem.

Que influência todos estes cenários têm na vida profissional e pessoal dos formandos? Numa forma muito fria e pragmática, para todos não deixa de ser um dos contactos mais assertivos com a realidade profissional e uma forma de contextualizar e recentrar objetivos. Ao longo destes anos assisti a casos de formandos que se inscreveram em cursos tendo uma determinada expectativa ou julgando que se enquadraria nos seus projetos a curto prazo e que a determinada altura, e porque também se foi mantendo um diálogo aberto e sincero, resolveram rumar para outras áreas. Estas casos são frequentes e não pensem que é sinónimo de desnorte ou irresponsabilidade, certamente já aconteceu com todos e será recorrente. Esta recorrência vem com natureza de algumas áreas formativas, que exploram mercados profissionais emergentes e como tal, o pleno conhecimento das suas realidades quer de funcionalidade quer de exigência técnica é uma ideia vaga para alguns.

O cenário oposto também acontece, sendo o mais predominante. Formandos que vem de consciência plena e aberta para a área formativa que se inscreveram, certos e convictos do percurso que têm pela frente. E mesmo aquelas que não trazem a mesma clareza, acabam por se surpreenderem ao descobrirem um gosto e uma capacidade de adaptação para com uma nova perspetiva e realidade profissional.

Em todos os casos o papel do formador é determinante, não só acaba por desempenhar um pouco o papel de orientador vocacional como é seu dever e responsabilidade fazer o enquadramento sempre atual da realidade profissional e das exigências de mercado, quer no âmbito das competências sociais, quer no âmbito das competências técnicas.

Artigo de Opinião em: Vida Económica. | Texto de: Ricardo Guerreiro.